Espírito Santo da Fortaleza: Fundação de Bauru – SP e ramal ferroviário.

Poucos bauruenses sabem da história de Espírito Santo da Fortaleza. Menos ainda sabem onde ficava. Eu descobri há pouco tempo e agora quero compartilhar aqui essa história e a relação com um antigo ramal da Companhia Paulista de Estradas de Ferro.

Espírito Santo da Fortaleza, também chamado somente de Fortaleza e depois de Piatã, começou ao redor de uma igreja em 1859, na época do desbravamento do oeste paulista e do embate com os índios nessa região. Atualmente sua localização seria entre Agudos e Pederneiras, bem no meio do mar de eucaliptos da Duratex.

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Igreja de Espírito Santo da Fortaleza, construída em 1859, fotografada por volta da década de 1950. Reprodução do livro Bauru: origens históricas.

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Recorte do Mappa da Provincia de São Paulo, 1886, APESP. Mostra a localização de Fortaleza no centro, logo ao norte da Serra dos Agudos. C. Bauru pode ser a atual foz do rio Bauru e ribeirão Grande no rio Tietê. A área verde constava como terrenos despovoados. Não confundir Espirito Santo desse mapa, que é o atual município de Espírito Santo do Turvo.

Em 1887 Fortaleza ganhou status de município. Nessa época Bauru era um povoado beirando o córrego das Flores próximo ao rio Bauru. Em 1893 Bauru passou a ser distrito de Fortaleza. 25 km é uma estimativa de distância entre esses dois locais, por possível caminho da época.

Mas Fortaleza estava em decadência, enquanto Bauru prosperava. Até que em 1896 a sede de município foi transferida para Bauru após vários desentendimentos entre vereadores representantes de Bauru e de Fortaleza. Por isso hoje alguns poderiam dizer que a fundação de Bauru foi marcada por um golpe parlamentar.

Em 1903 chegaram a Fortaleza os trilhos da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Mais precisamente o ramal dos Agudos, que na época era o trecho de Dois Córregos até a recém criada Piratininga. A partir dessa época Fortaleza passou a ser chamada de Piatã, assim como a nova estação de trem nas proximidades. Piatan é outra grafia usada para Piatã.

Em 1917, Piatã — já como distrito de Agudos — foi extinto, restando a estação, algumas casas e plantações de café, que logo sofreriam com a crise de 1929.

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Recorte de mapa de 1938 encontrado em publicação no Museu Municipal Francisco Pitta, em Avaí – SP.

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A rede elétrica demorou décadas para chegar em Piatã. Antes disso, essa roda d’água ligada num dínamo gerava toda a energia ali.

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Roda d’água em 2016. Dezenas de metros de mata fechada para alcançá-la.

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A roda é grande mesmo.

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Recorte e parte da legenda da Folha Topográfica de Jaú, 1950, APESP. Mostra a localização da estação Piatã, de casas e de uma igreja, possivelmente a igreja de Fortaleza. Nessa época já não havia mais nenhuma referência ao local do antigo município. Note o destaque para fábricas de aguardente. 😀

Em 1966 todo o então ramal de Agudos foi encerrado, de Pederneiras até Piratininga. Os trilhos foram retirados e as estações da zona rural abandonadas ou demolidas.

Nessa época a área da estação Piatã foi comprada pela empresa alemã Freudenberg que já era proprietária de toda aquela região desde 1958, e que a transformou numa imensa floresta de pinheiros. Nos anos seguintes, a área próxima a estação tornou-se a Companhia Agro Florestal Monte Alegre – CAFMA.

Em 1988 toda a área da Freudenberg foi comprada pela Duratex. A estação Piatã foi demolida poucos anos depois.

Atualmente o local da estação está sob eucaliptos. Próximo a esse local ainda há uma pequena igreja e parte da estrutura da antiga CAFMA. O lugar agora chama-se Área de Vivência Ambiental Piatan – AVAP. Ali a Duratex promove visitas de grupos monitorados para apresentação da vegetação.

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Igreja no local indicado pelo mapa acima. De acordo com relatos de ex-moradores da região, essa pode ter sido construída no lugar da igreja original de Fortaleza.

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Imagem de 2016 mostrando o local onde foi Fortaleza com a indicação dos antigos locais da estação e do traçado da ferrovia. (clique na imagem para aumentar)

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Ruínas da estação Piatã.

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Estrutura parecida com um poço no local da estação Piatã.

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Local da estação Piatã em 2016. Foto tirada na mesma posição e direção das duas abaixo.

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Estação Piatã em 1988. Foto de Nilton Gallo.

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Estação Piatã em 1918. Foto de Filemon Perez.

A partir dessa história eu fiquei interessado pelas estações desse ramal. Foram as seguintes, nessa ordem: Pederneiras, Itatingui, Piatã, Agudos, Taperão, Itaquá, Batalha e Piratininga. Esse ramal ficou pronto em 1905 e funcionou até 1966.

Os prédios das estações das cidades de Pederneiras, Agudos e Piratininga estão atualmente em uso e bom estado de conservação, e são de propriedade das respectivas prefeituras.

Essa pesquisa destaca as estações na zona rural. Dessas apenas a Itatingui continua de pé, graças a família proprietária da área que a conserva muito bem desde que comprou as terras da sucessora da Companhia Paulista.

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Estação Itatingui aos 113 anos.

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Estação Itatingui nos anos 1920.

Pesquisei em vários mapas e descrições e fui pessoalmente no local de todas essas estações da zona rural.

Piatã, Itaquá e Batalha foram mais difíceis de encontrar, pois não achei descrições atuais, apenas mapas antigos. O local da estação Taperão, hoje bem próximo da zona urbana de Agudos, ainda é lembrado por alguns moradores.

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Estação Taperão ficava entre as mangueiras, na direita.

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Estação Taperão em 1918. Foto de Filemon Perez.

A estação Itaquá ficava próxima a atual entrada da fazenda Itaquá. Restam alguns pedaços de tijolos na margem do atual caminho de terra que passa por lá.

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Local da estação Itaquá em 2017. Tirada na mesma posição e direção da foto abaixo.

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Estação Itaquá em 1918. Foto de Filemon Perez.

No local da Estação Batalha, que é de difícil acesso, eu fiz uma longa caminhada até encontrar suas ruínas. Caminhei por belos trechos do leito que não desaparecem, mesmo após 50 anos da retirada dos trilhos. A estação ficava bem próxima do rio Batalha. Atualmente o local é um pasto bastante isolado, em área de particulares. Resta apenas uma parte de trás da plataforma fixa no lugar.

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Estação Batalha ficava entre as árvores do centro da foto, à direita do caminho de terra. Foto tirada na mesma posição e direção das duas abaixo.

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Foto do vídeo de 1988 de Nilton Gallo mostra que ainda existia a parte da frente da plataforma, além de um galpão no lugar da estação Batalha.

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Estação Batalha em 1918. Foto de Filemon Perez.

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Tudo o que restou da estação Batalha em 2016: A parte de trás da plataforma.

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Parte de trás da plataforma em 1988.

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Pedaço de tijolo próximo as ruínas da Estação Batalha. Possivelmente das Indústrias Reunidas Fábricas Matarazzo.

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Após 50 anos da retirada dos trilhos, o leito ainda está lá.

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Árvores e mato crescem dos lados e cobrem tudo, mas no leito não nasce nenhuma árvore.

ramal-de-agudos-201705Trajeto e estações do ramal de Agudos. Todo o traçado de 57 km e as estações da zona rural foram encontrados através da visualização das marcas do antigo leito pelas fotos de satélite, da sobreposição de mapas e da visita aos locais. (clique na imagem para aumentar)

Antes dessa pesquisa aparentemente não havia nenhuma publicação com a localização precisa de Fortaleza, das estações Piatã, Itaquá e Batalha, nem do traçado do ramal de Agudos.

Utilizei aqui muitas informações e fotos do excelente site www.estacoesferroviarias.com.br de Ralph M. Giesbrecht e dos contatos por email com os amigos Daniel Gentili e Nilton Gallo. Também entrei em contato com vários antigos moradores da CAFMA. Minha esposa Flávia e o casal de amigos Gustavo e Cláudia foram grandes parceiros nas pesquisas no local. Assim como meus filhos Taís, Léo e Raul. Deixo um agradecimento especial para todos eles.

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Gustavo, Cláudia, Flávia e Denis sobre o antigo leito da ferrovia em 2017. No fundo, o local onde foi Fortaleza.

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Raul sob uma primavera dos tempos da CAFMA.

Outras fontes foram: Livro Bauru Edição Histórica, editora Focus, c. 1977; Livro Bauru Cidade sem Limites vol. V, 1958; Livro Bauru: origens históricas, editora Canal 6, 2015; Livro Album Illustrado da Companhia Paulista de Estradas de Ferro 1868-1918, 1918; Relatórios da Companhia Paulista de Estradas de Ferro e Vias Fluviais (1869-1971) digitalizados por www.rosana.unesp.br/; Legislação da ALESP em www.al.sp.gov.br; Mapas digitalizados pelo APESP em www.arquivoestado.sp.gov.br; Freudenberg em www.freudenberg.com.br.

Serão muito bem vindas mais informações ou correções para atualizar. Última atualização em 28/09/2017.

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Um comentário sobre “Espírito Santo da Fortaleza: Fundação de Bauru – SP e ramal ferroviário.

  1. Belíssima matéria…sobretudo neste país que teima em apagar o passado…e nesta região que econômica e
    socialmente decolou graças à FERROVIA….hoje criminosamente sucateada…PARABENS pela pesquisa
    e divulgação…Grande aula de História

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